Crônicas de Almakia #2

Ok, antes que a pergunta ‘E a Crônica #1?’ seja feita, avisando que ela estará na Coletânea Fantástica da Modo que logo será publicada. É a Crônica Dragão de Fogo, que trabalha um ponto do passado muito importante para o livro 2 😀 Ela já foi publicada em 2011 na Coletânea Tratado Secreto de Magia Vol 2, pela Andross Editora, e agora terá sua segunda publicação impressa.

Agora, confiram um pouco mais sobre o passado recente do cenário de Almakia:

CRÔNICAS DE ALMAKIA
DRAGÃO DE ÁGUA

Para prever o futuro com almaki de água, existem alguns fatos que são inevitáveis.

Primeiro precisamos de um ponto de referência, uma pessoa. E precisamos conhecê-la para ter certeza que aquele futuro é o que lhe caberia.

Em segundo, precisamos saber nos controlar no que prevemos, porque o futuro é fluído e irregular. Como a água, escapa por entre nossas mãos. Se não prestarmos atenção, pode transbordar. E, se transbordar, caímos na terceira e terrível regra: o preço a se pagar.

A verdade sobre o Segredo de Água era uma das lembrança mais antiga de Faira. A única que sobrara intacta e completa sobre a sua infância. Ela lhe fora recitada tantas vezes que permanecera, enquanto todo o resto ia se desbotando e se perdendo nas ordens de que olhasse para frente.

O preço a se pagar era uma maldição. Sempre soubera, mesmo que lhe dissessem o contrário.

Assistira os Minus se perderem em ilusões de que eram fortes, poderosos e invencíveis. Que conseguiriam passar pelo limiar de seus almakis e voltariam, ilesos.

Ninguém voltou.
Ela era a única Minus que restara da Família de Água.
Mas logo não restaria ninguém.

Mais uma vez ela olhou para a imensidão escura abaixo dela. Sabia que o rio estava lá, terrível como o clima daquela noite, com águas se agitando em turbilhões e se unindo ao mar revolto mais adiante. Sua avó costumava dizer que quando o mar estava furioso ele gritava e batia nos penhascos como se tivesse punhos. Nunca essa imagem que criara do mar em tempos passados fizera tanto sentido. O mar era um gigante furioso com punhos, perfeito para suas intenções. E ali era o melhor lugar para dar um fim a tudo.

Aquela ponte era um dos pontos mais bonitos da Capital Real de Almakia durante o dia. Muitas pessoas vinham de longe somente para poder vê-la com os próprios olhos. Era o orgulho dos Gillion, construída pela Família Gran’Otto há algumas décadas. Porém, naquela noite chuvosa, tudo não passava de monstro construído por almakins e fustigado pela chuva forte. Outro gigante que a ajudaria.

Ao redor de Faira não havia nenhum outro som que não fosse o estrondo da chuva caindo. Com a cortina de água, a Capital real ao longe era somente um conjunto de borrões indistintos de luzes.  Nada mais lhe tiraria a sua atenção. Bastava se deixar cair, e tudo terminaria. A Família de Água e seu Segredo terminariam com ela.

Algo branco escorregou pelo seu rosto e ficou na frente de seus olhos, e ela precisou se forçar a reconhecer aquilo como parte dela mesma. Seus cabelos brancos, a prova de que não tinha mais muito a perder. Ter o mesmo destino que seus irmãos era uma questão de tempo. Apenas mais alguns dias. Não era preciso prever o seu futuro para saber que aqueles almakins a caçariam e a levariam de volta de onde fugira. Então a forçariam a ser útil mais uma vez. E aquela seria a última. Se fosse para morrer, preferia fazer isso sendo ela mesma, não a arma de alguém.

Senarin teria que perdoá-la. Não voltaria ao Instituto naquele ano como lhe prometera. Nunca contara a amiga o real motivo de estar na Capital Real, e preferia ela continuasse pensando que era uma convidada dos Dul’Maojin. Senarin não conhecia todas as verdades das Grandes Famílias, e seria melhor para ela permanecer dessa forma, sendo apenas uma almakin de metal de segunda ordem.

Uma rajada de vento fez Faira se desequilibrar e se agarrar à coluna do parapeito da ponte onde estava em pé. Ela ofegou assustada e logo depois se sentiu idiota: afinal, o que queria não era justamente cair?

Então, tomando coragem, se soltou da coluna e deu um impulso, abrindo os braços e se deixando cair para frente.

Porém, seu corpo foi puxado para trás, batendo violentamente no chão e rolando para o lado. Demorou um tempo ela entender que havia sido puxada pela cintura, e agora era segurada com força por uma pessoa. Mas não pôde ver quem era. Sua visão ficou turva e enevoada em um efeito que ela já conhecia.

De repente não havia mais barulho de tempestade a sua volta. Havia passos que se aproximavam, e ela tinha plena consciência que estava deitada, morta.

Um rosto apareceu na sua frente. Um menino pequeno, com cabelos dourados e olhos azuis. Ela conhecia aqueles olhos. Era o mesmo que via em seus irmãos: intensos como se guardassem uma infinidade de almaki de água. Mas aqueles pequenos olhos que a encaravam não tinha o orgulho dos Minus, e pareciam tristes.

– A mamãe vai voltar? – ele perguntou de uma forma calma, como se já soubesse a resposta, mas mesmo assim quisesse que alguém respondesse.

Mais alguém apareceu, dessa vez era um homem loiro. Ao contrário do menino, ele não parecia triste, estava arrasado.

– A mamãe não vai voltar, Nu’lian. – ele respondeu, colocando a mão na cabeça da criança em um gesto de quem tenta confortar. – Não dessa vez.

Então o menino a olhou bem de perto e sorriu. Era um sorriso calmo, encantador, como se realmente soubesse que ela estava o observando.

Ele passou a mão em seus cabelos brancos e disse:

– Volte para a chuva, mamãe.

– … NO MEIO DA NOITE?!

Faira precisou esfregar os olhos e limpar o rosto da água que a encharcava para voltar à realidade. Estava na ponte, e alguém parecia lhe dar uma bronca.

– Sabe o perigo que estava correndo ali?! – ele perguntou – Se eu não tivesse chegado a tempo teria caído! Por acaso é louca?!

Então, não se importando em reforçar essa impressão que ele teve, Faira começou a rir. Sim, era uma louca que estava tentando se jogar de uma ponte para acabar com a sua vida antes que acabassem com ela. Mas agora voltara para a chuva, e percebera que não podia terminar daquele jeito. Ainda não.

Seu almaki lhe mostrara o seu futuro, e nele havia alguém esperando por ela. Os Minus ainda não podiam terminar.

A pessoa que a salvara a encarava ofegante. Então, como se chegasse a conclusão de que o pior já passara, ele começou a rir também. Afinal, eram dois loucos perdidos em uma noite chuvosa na Capital Real, um sem saber dos propósitos dos outro.

Mesmo que naquele local a iluminação fosse péssima, Faira podia vê-lo claramente agora em sua visão reforçada por seu almaki. Não tinha olhos azuis, mas seu cabelo escorrido pela chuva era dourado. E o seu sorriso não era calmo como o do menino que vira, mas era encantador da mesma forma.

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2 pensamentos sobre “Crônicas de Almakia #2

  1. Pingback: Diário de Escrita Almakia 3 – #18 | Almakia

  2. Pingback: Crônicas de Almakia #01 | Almakia

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